Boa leitura (3) Romance à moda francesa
Alta cultura domina "A Elegância do Ouriço"
Fenômeno editorial na França, onde já teve cerca de 850 mil exemplares vendidos, não seria preciso dizer que “A Elegância do Ouriço” é um romance cativante, daqueles que o leitor não consegue largar.
Seu charme reside na mistura de filosofia e literatura, no questionamento sobre o sentido da vida e a importância da arte, da música e do cinema para as pessoas de todas as classes sociais – embora, aqui, se trate de alta cultura. A autora, que é também professora de filosofia na Normandia, acaba compondo um retrato do modo de vida na França atual, que abrange preconceitos sociais, imigração, falta de perspectivas da juventude, ironizando, com humor, as idéias feitas, os lugares-comuns.
A história é narrada do ponto de vista de Renée Michel, zeladora cinqüentona de um palacete de apartamentos no número 7 da rue de Grenelle, em Paris, endereço que abriga gente rica e tradicional, e da garota Paloma Josse, de 12 anos e meio, almas gêmeas de classes diferentes, que acabam se aproximando cada vez mais no decorrer da trama, principalmente depois que se muda para o local um rico japonês, Kakuro Ozu, quebrando as rígidas convenções sociais dentro do condomínio.
Renée não é uma simples zeladora, apenas finge. Leva uma vida dupla: aquela em que aparece como o estereótipo da concierge – ignorante, feia e mal-humorada – e a outra, vivida longe dos olhos dos moradores e ao lado do gato, Leon – a de ávida leitora de grandes autores, sendo o maior Leon Tolstoi, fã de Mozart, da pintura holandesa e, em especial, de cinema japonês. De infância pobre e sofrida, verdadeira autodidata, ela não quer que descubram quanto é inteligente e informada.
Já Paloma é uma adolescente rica, filha de pai político, mãe doutorada em Letras, que se diz socialista e há dez anos vive à base de antidepressivos, e uma irmã que estuda filosofia, arrogante e esnobe como a maioria dos moradores. Superdotada, a menina também faz de tudo para esconder sua inteligência. O motivo? Para não lhe obrigarem a um destino convencional.
Cética e desencantada, é uma verdadeira filósofa de plantão (um personagem um tanto quanto inverossímil pela, digamos, maturidade de seus pensamentos em tão tenra idade), mantendo um “Diário de Pensamentos Profundos” e um “Diário do Movimento da Vida” – um destinado às questões do espírito; outro, aos do corpo. Resolveu escrever os diários com um objetivo: deixar registrado o que pensa até o dia de seus 13 anos, quando pretende pôr fogo no apartamento e se suicidar. Como a zeladora, demonstra fascínio pela cultura japonesa – lê mangás e cita haicais e tankas.
Nascida em Bayeux, na Normandia, em 1969, Muriel Barbery cursou a célebre École Normale Supérieure de Paris. Estreou na literatura em 2000, com o romance “Une Gourmandise”. “A Elegância do Ouriço” foi lançado na França em agosto de 2006 e em poucos meses se tornou um best-seller. Já em janeiro de 2007 a jovem cineasta Mona Achache, de 26 anos, comprou os direitos de filmá-lo, um projeto que está em andamento.
“A Elegância do Ouriço” - Muriel Barbery - Cia. das Letras, 352 págs., R$ 45,00
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 7/3/2008
Boa leitura
A partir deste mês, reproduzirei aqui algumas resenhas que venho escrevendo desde fevereiro de 2007 para compartilhar com vocês alguns livros que acho muito interessantes. Vai ser uma publicação meio de trás para diante, porque inicio com a última estampada no "Valor", no dia 2. Fala de uma escritora que me acompanha desde os primeiros momentos de minha adolescência, quando eu estava descobrindo a boa literatura. Lamento não ter tido tempo para conhecê-la pessoalmente (morávamos a 300 km de distância e ela morreu quando eu tinha acabado de completar 16 anos...) - a grande e insuperável Clarice Lispector. Vejam abaixo.
Boa leitura (1) Um encontro mágico com Clarice
Fotobiografia monumental refaz vida da escritora
Dá para contar nos dedos de uma mão o número de fotobiografias de escritores publicadas no Brasil – não entram na conta os “Cadernos de Literatura Brasileira” do Instituto Moreira Salles, que têm outro formato. O que já se publicou? Nos anos 1980, a Edições Alumbramento lançou três volumes que contemplavam Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Mas quem acha tais obras em alguma livraria? Mais recentemente, a Planeta lançou “Borges – Uma Biografia em Imagens”, de Alejandro Vaccaro. E só.
Pois quem ama literatura brasileira acaba de ser presenteado com a melhor fotobiografia já publicada no Brasil – a de Clarice Lispector (1920-1977), da biógrafa e pesquisadora Nádia Battella Gotlieb, autora também de “Clarice, uma Vida Que se Conta” (Ática, 1995, edição esgotada), resultado de sua tese de livre-docência na Universidade de São Paulo. O que se vê agora, no novo trabalho dessa especialista, é “um outro retrato de Clarice”, com “enfoque de singularidades”, como diz Nádia na apresentação.
Seu trabalho de pesquisa é algo monumental. São cerca de 800 imagens, muitas inéditas, em que se recupera a vida da grande autora de “Perto do Coração Selvagem”, “A Paixão Segundo G.H.” e “A Hora da Estrela”, entre outros. Mas não pensem que é um livro com 800 fotos só de Clarice, embora ela tenha sido bastante fotografada, mesmo tendo fama de arredia, tímida ou “esquisita”. Não. Nádia refez a trajetória de sua biografada em detalhes, visitando os locais onde ela viveu não só no Brasil (Maceió, Recife e Rio) como no exterior (Itália, Suíça, Inglaterra Estados Unidos), acompanhando o marido diplomata, Maury Gurgel Valente. Esteve também na aldeia de Tchetchenilk, na Ucrânia, onde Clarice nasceu, quando a família estava no início de seu caminho rumo ao Brasil.
Nesse trabalho para lá de minucioso de recuperação de uma história de vida, Nádia também localizou – e reproduz – dezenas de imagens dos antepassados da escritora e seus parentes (imigrados ou não). Some-se a isso grande quantidade de manuscritos, datiloscritos, cartas, reprodução de recortes de imprensa de e sobre Clarice.
Todo esse material – distribuído em 13 capítulos em ordem cronológica - vem acompanhado de legendas claras e objetivas por meio das quais o aficionado pela obra clariciana acaba por mergulhar na sua intimidade, tendo com ela “encontros mágicos”, e sai de lá mais fascinado.
“Esses encontros mágicos podem ocorrer a partir de algumas transcrições de textos seus, ou de modo mais sutil, em cada detalhe gráfico: certas paisagens, pedaços de cidades, pessoas sós ou em grupo, na caligrafia de certas cartas e dedicatórias, em espaços interiores, em papéis desgastados pelo tempo, ora em sépia, ora voluntariamente rasgados, sinais gráficos do que existiu, como são também sinais os registros de passeios, posturas de corpo, olhares, gestos”, escreve a pesquisadora.
Ao fim do volume, há um caderno de 165 páginas, das quais 65 Nádia dedicou a notas com detalhes das imagens. O restante desse caderno traz 52 páginas de cronologia (vai de 1885, data do nascimento do pai da escritora, a 2007), referências bibliográficas, bibliografia de e sobre Clarice, a relação dos arquivos e fontes consultados, os créditos das imagens e os agradecimentos.
Depois de tudo isso, surpreendentemente, o assunto não está esgotado, de acordo com Nádia. “Não me detive, como gostaria, no registro documental visual de toda a bibliografia de Clarice e de sua fortuna crítica”, afirma. “Selecionei alguns registros, abdicando de todos os outros, por não considerar viável a reprodução de excessiva quantidade de imagens de jornais e revistas em que aparecem textos de Clarice e de outros, que dela tratam.” O resultado dessa constatação é promissor: “Esse material merece integrar outra publicação, a ‘Fotobibliografia de Clarice Lispector’, em preparação.” Os leitores só têm que agradecer.
“Clarice – Fotobiografia” - Nádia Battella Gotlieb - Edusp/Imprensa Oficial, 656 págs., R$ 90,00
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 2/5/2008
Escreve-me!

Escreve-me... Escreve-me! Ainda que seja
[só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...