10.5.08

Boa leitura (2) Sob a bênção do samba



Quando se pensa que já nada mais há no “baú de raridades” da bossa nova, neste ano em que se comemoram seus 50 anos, eis que “aparecem” estes textos, inéditos em livro, de Vinicius de Moraes, que, seja bem dito, não trata só do movimento do qual ele foi um dos mais importantes protagonistas, mas de música brasileira no geral e carioca, em particular. Erudita ou não, com destaque, como o título já indica, para o samba – cuja história, aliás, o poeta de “Samba da Bênção” e tantos outros sucessos conhecia em detalhes, contada da boca de sambistas “da gema”, como Pixinguinha (este seu ídolo) e Almirante.

Mas não se trata de simples crônicas – no sentido que o gênero tomou ao longo do tempo, praticado pelo próprio Vinicius em outras ocasiões. Os textos deste livro, escritos entre as décadas de 1950 e 1970 e publicados em revistas e jornais como o “Última Hora” e o “Pasquim”, são mais depoimentos, declarações de amor à música e a alguns compositores e intérpretes, do que crônicas.

O compositor e poeta tem um jeito de narrar que chama o leitor à intimidade e às revelações. Sim, como num bate-papo entre amigos, já agora carregado de nostalgia, porque se dá num Rio, digamos, aprazível, mais tranqüilo e pacífico, muito diferente da cidade atormentada pela violência que aparece hoje nos noticiários.

São 53 as crônicas, pinçadas do arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa por Miguel Jost, Sergio Cohn e Simone Campos e reunidas em cinco partes: “No Meu Tempo Era Assim...”, “Diz-Que-Discos”, “Duas Cartas e um Testemunho”, “Bossa Nova” e “Retratos e Outras Bossas”. Entre elas, destacam-se “O Samba É Carioca e não Nasceu no Morro”, uma história do gênero; “Carta ao Lúcio Rangel”, uma defesa ardorosa de sua parceria com Tom Jobim e também da bossa nova; “SP não É mais o Túmulo do Samba” – aliás, vocês sabiam que essa definição era dele? -; “O Que É Bossa Nova”, “Elizeth no Municipal”; “Ciro Monteiro”.

Na verdade, será difícil para qualquer fã de Vinicius e de boa MPB escolher. Lá estão os relatos sobre as primeiras parcerias com Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra e Toquinho; João Gilberto, é claro; o dia em que conheceu o que viria a ser o Quarteto em Cy; e depois os novos que foram formando a enorme constelação de talentos musicais brasileiros do século XX, entre outros assuntos.

A bossa nova faz 50 anos. Vinicius festejou o cinqüentenário do samba, em 1969, quando falava a respeito do IV Festival Internacional da Canção. “De Pixinguinha a Francis Hime, 50 anos se passaram em que, como despreocupados mas atentos atletas de uma longa maratona, foram todos esses grandes passando de um para outro a tocha viva do samba”, escreveu. “O samba ficou do balacobaco e depois da pontinha, para hoje tornar-se, com o advento da bossa nova e da moderna música popular, tal como a praticam Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Egberto Gismonti, no fino do som, no superquente, no cheio de plá.”

Para terminar, o livro traz a letra de “Samba da Bênção”, incluindo as falas do poeta em homenagem aos seus músicos e compositores queridos. A elas agora se pode acrescentar mais uma de seus ouvintes: “A bênção, Vinicius!”


“Samba Falado – Crônicas Musicais” - Vinicius de Moraes - Azougue, 200 págs., R$ 36,90

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 25/4/2008

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