23.2.09

Boa leitura (16) - O trapaceiro como obra de arte


O enigmático Valfierno por Martín Caparrós

Era 23 de agosto de 1911. Um calor implacável maltratava os parisienses. No meio da tarde, os vendedores de jornal percorriam as ruas gritando a manchete das edições extras: “A ‘Gioconda’! Saibam de tudo! A ‘Gioconda’ desapareceu!” Comoção nacional. A tela de Leonardo da Vinci, a mais famosa do acervo do museu, havia sido roubada dois dias antes. Só dois anos depois, a obra-prima voltou à França — foi levada para a Itália pelo ladrão, o carpinteiro Vincenzo Perugia.

Em 1932, o jornalista americano Karl Decker publicou reportagem no jornal “The Saturday Evening Post” em que dá voz ao autodeclarado autor intelectual do roubo, um tal marquês argentino Eduardo de Valfierno, que, já morando nos Estados Unidos, o chamou para contar sua façanha — da qual saiu milionário — e lhe pediu que guardasse segredo sobre o crime até a sua morte, ocorrida em 1931. É sobre esse personagem intrigante, trapaceiro exemplar, que mudou de identidade algumas vezes antes de se tornar “marquês”, que se debruça o jornalista e escritor argentino Martín Caparrós, de 51 anos, pela primeira vez publicado no Brasil.


Com a ajuda de um amigo francês, pintor frustrado e exímio falsificador, Valfierno vendeu seis cópias da “Mona Lisa” por US$ 300 mil cada uma a ricos e ambiciosos colecionadores americanos, que acreditaram estar comprando a original roubada e prometeram nunca revelar esse fato. Foi um golpe de mestre, principalmente se resultou mesmo da estratégia minuciosa que o falso marquês narra ao jornalista americano (no livro chamado de Charles Becker), já que ele nunca foi descoberto.


“A história do jornalista americano me parecia tão fascinante em si que pensei que não havia nada novo para contar até que me ocorreram duas coisas: romper com sua estrutura linear e inventar uma vida para esse grande falsificador”, explicou o escritor em entrevista a “El País”, logo depois de ganhar com o romance o Prêmio Planeta 2004, na Argentina.


Com uma estrutura narrativa fragmentada, que superpõe etapas da vida do protagonista e “depoimentos” dos outros personagens, Caparrós enreda o leitor e o deixa em suspenso até o fim, levando-o também a refletir sobre identidade, a construção de um personagem e o valor das obras de arte. Para ele, aliás, “a melhor obra do marquês de Valfierno é ele mesmo”.


A história do roubo em si interessa menos a Caparrós, mesmo porque já foi explorada por outros autores, como o americano Robert Noah, em “The Man Who Stole the Mona Lisa” (1998) e o inglês Martin Page (1938-2005), com um romance de mesmo título — sim, ele é homônimo do jovem escritor francês de “Como Me Tornei um Estúpido”. O ficcionista argentino, aliás, revelou ao jornal espanhol que nem gosta da “Mona Lisa”: “Para mim, ela é a ilustração de uma lata de doce de batata argentino que traz seu retrato.”



“Valfierno” - Martín Caparrós - Companhia das Letras, 368 págs., R$ 46,00

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 17/10/08

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