6.12.08

Boa leitura (11) - O nobre elefante de Saramago

Escritor nos leva em aventura pelo século XVI

Graves problemas respiratórios irrompidos no ano passado interromperam a longa viagem de uma caravana ligeiramente exótica que conduzia um elefante asiático através da Europa no século XVI. Seu condutor, o Nobel de Literatura de 1998, José Saramago, chegou a pensar que os viajantes não cumpririam seu objetivo. Mas, como ele mesmo já disse, “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.

Muito diferente de obras anteriores, como “Ensaio Sobre a Cegueira” ou “A Caverna”, que prendiam o leitor em teias apocalípticas e claustrofóbicas, o novo romance do escritor português — ele prefere chamar de conto —, a ser lançado mundialmente no Brasil no fim deste mês, esbanja leveza. Mas não deixa de trazer a marca registrada do autor: o fino humor e a profunda ironia, as críticas mordazes à Igreja Católica e aos caprichos e imbecilidades de quem acredita deter algum poder genuíno — do mais humilde súdito ao próprio rei, passando, é claro, pelo pároco.

Nas páginas de “A Viagem do Elefante” comprova-se mais uma vez o poder imaginoso de Saramago, que informa ao leitor, antes de mais nada, o que o inspirou: uma série de pequenas esculturas de madeira que retratavam uma fila de pessoas e um elefante, além da Torre de Belém, em Lisboa, e de outros monumentos europeus, num restaurante em Viena. Contaram-lhe, então, que ela representava a viagem de um elefante do rei d. João III que em 1551 foi levado para a capital austríaca, atravessando meia Europa. Não há muitos registros históricos sobre isso, mas o romancista diz que “pressentiu que podia haver ali uma história”.

Tão logo nos habituemos à pontuação peculiar do autor, essa história passa a fluir harmoniosa: a do elefante Salomão — oferecido por d. João III como presente de casamento ao arquiduque da Áustria, Maximiliano II, genro do imperador da Espanha, Carlos V — e seu difícil itinerário, de início sob um calor tórrido e no fim enfrentando o frio dos Alpes austríacos. Isso sem contar algumas proezas que tem de aprender rapidinho — como ajoelhar-se diante da basílica de Pádua por imposição do padre local, ansioso por fabricar um milagre para a população. Um “milagre” que só é possível pela habilidade e obstinação do personagem mais inteligente do livro, o filosófico cornaca (tratador de elefantes) indiano Subhro, por intermédio do qual Saramago dá suas bordoadas mais elegantes no establishment.

O escritor português, que completou 86 anos no dia 16 e tem mais de 20 livros publicados no Brasil, esteve no dia 26 na Academia Brasileira de Letras, no Rio, onde foi homenageado, e participou do lançamento mundial de “A Viagem do Elefante” no dia 27 no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

“A Viagem do Elefante” - José Saramago - Companhia das Letras, 264 págs., R$ 42,00

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 21/11/2008 com informações atualizadas em 6/12/2008 para este blog


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