4.12.08

Boa leitura (10) - Uma homenagem lírica aos que viveram

O escritor inglês John Berger apresenta suas memórias de uma maneira original em “Aqui Nos Encontramos”


O aclamado escritor inglês John Berger, de 81 anos, encontrou uma maneira inovadora de narrar suas memórias: ir ao encontro das pessoas que foram muito importantes na sua vida, de diversas nacionalidades e espalhadas por países como Portugal, Suíça, Polônia, Inglaterra, Espanha e França. Com um detalhe: elas estão mortas há muito tempo. Não, nada há de macabro nos relatos, redigidos, aliás, com leveza poética e elegância. Trata-se apenas de uma forma de puxar o fio da meada das lembranças.

A jornada começa em Lisboa, capital que evoca a saudade — esta palavra que surpreende os estrangeiros por só existir na língua portuguesa e à qual ele atribui mais significado do que apenas nostalgia — e o fado, a saudade em forma de música.

Lá, ele encontra o fantasma da mãe. “Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados. Os mortos, quando estão mortos, podem escolher onde querem viver na Terra, sempre se supondo que eles decidam ficar na Terra”, adverte-lhe a idosa inglesa, que optou por ficar nessa cidade. E lhe pede para homenagear os que se foram: “Faça o gesto de cortesia de nos observar.”

A primeira homenagem é a um de seus autores preferidos, Jorge Luis Borges, em Genebra, ponto de convergência de revolucionários, conspiradores, líderes do mundo todo, cidade “tão contraditória e enigmática quanto uma pessoa viva”. Ao lado de outra mulher de sua família, desta vez bem viva, sua filha Katya, John visita o túmulo do escritor argentino, que quis ser enterrado na cidade suíça.

Ganhador do prestigiado Booker Prize em 1972 por “G.”, Berger, no entanto, não se restringe apenas a relatar os dias idos. Enquanto viaja, contempla o presente, registra a beleza dos locais e revela suas reflexões sobre o vivido.

Assim é em Le Pont d’Arc, no Ardèche, região no sul da França, quando visita cavernas com pinturas rupestres dos Cro-Magnons descobertas em 1994. Também desenhista, o escritor medita sobre arte e passagem do tempo.

Já no distrito londrino de Arlington, encontra-se com um velho colega da escola de arte, que vive numa casa onde ainda prevalece a decoração do tempo em que sua mulher era viva, para que o amigo o ajude a se lembrar do nome de uma paixão de juventude. “Aqui Nos Encontramos” é seu sétimo livro publicado no Brasil.


“Aqui Nos Encontramos” - John Berger - Rocco, 208 págs., R$ 33,50

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 18/7/2008

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