17.1.09

Boa leitura (14) - Obra-prima de um virtuose da literatura


“Concerto Barroco”, a “suma teológica” da carreira de Alejo Carpentier, volta em nova e caprichada tradução

Volta às livrarias uma jóia literária do grande autor latino-americano Alejo Carpentier (Havana, 1904-Paris, 1980): “Concerto Barroco”. Escrito em 1974, o livro, que teve edição anterior por aqui em 1985 pela Brasiliense, foi considerado pelo próprio escritor, um apaixonado pela música, a “suma teológica” de sua carreira.
Nele está presente o “real maravilhoso” — a coexistência em um mesmo espaço e tempo de dois mundos diferentes — tão caro a Carpentier desde 1949, quando lançou o romance “O Reino Deste Mundo”.

A história, que se passa no início do século XVIII — embora lá pelo meio do enredo o narrador faça uma “viagem ao futuro” —, é a de um milionário da prata mexicana que viaja para uma temporada na Europa com um criado, demorando-se em Veneza em pleno carnaval e vivendo peripécias eróticas e musicais. Ali ele encontra Vivaldi, o napolitano Scarlatti e o anglo-saxão Haendel. Acompanhados por uma orquestra de 70 jovens órfãs de um convento, eles protagonizam uma delirante “jam session”. E o mestre veneziano se interessa em compor com o rico homem a ópera “Montezuma”, sobre a conquista do México.

O barroco do título refere-se não só ao período, mas à estrutura do texto, que explode em cores e sons e é fiel ao que Carpentier, um virtuose da literatura, pensava sobre esse movimento estético, para ele “uma arte em movimento, uma arte de pulsão”, movimento que é, sobretudo, música. Assim, o leitor segue enlevado a sonoridade das palavras e o ritmo das frases, em páginas de intensa força poética.

Leiam um trecho, sobre a folia em Veneza: “(...) entre cinzentos, opalescências, matizes crepusculares, sanguinas apagadas, fumaças de um azul pastel, tinha estourado o carnaval, o grande carnaval da Epifania, em amarelo-laranja e amarelo-tangerina, em amarelo-canário e em verde-rã, em vermelho-romã, vermelho de pisco-de-peito-ruivo, vermelho de caixas chinesas, trajes axadrezados em anil, e açafrão, laços e rosetas (...), bicórnios e plumagens (...), com tal estridor de címbalos e matracas, de tambores, pandeiros e cornetas, que todas as pombas da cidade, num só vôo que por segundos enegreceu o firmamento, debandaram para margens distantes.

“Concerto Barroco” - Alejo Carpentier - Companhia das Letras, 96 págs., R$ 27,50

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 3/10/2008

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