14.5.09

Boa leitura (22) - A gula literária de Hornby

Nick Hornby: “Nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos”

Apaixonado por livros, futebol e rock, Nick Hornby manifesta total solidariedade a todos aqueles que não abrem mão do prazer da leitura, sentem-se um pouco culpados ou enraivecidos quando o trocam por outra atividade, acham que uma vida é pouco para ler tudo o que querem, são incapazes de sair de mãos vazias de uma livraria (culpando-se pelo dinheiro gasto) e muito dificilmente têm estantes suficientes.

Além disso, defende a liberdade de cada um ler o que quiser — de um best-seller ou um romance em quadrinhos a um clássico — e combate a obrigatoriedade da leitura de certas obras na escola ou a insistência por parte da família e de conhecidos.

O bom humor e ironia de Hornby estão presentes nestes 28 artigos que ele escreveu entre setembro de 2003 e novembro de 2006 na sua coluna “Stuff I’ve Been Reading” da revista britânica “The Believer”, da qual se despediu em setembro do ano passado.

Não se trata, no entanto, de um volume de resenhas. O subtítulo, a propósito, explica bem a intenção: “O Diário de Nick Hornby: um Leitor Que Perde as Estribeiras, mas nunca Perde a Esperança”. Parece mesmo um diário ou a correspondência trocada entre amigos que adoram livros, o que não exclui um pouco de crítica literária e inclui muito do cotidiano de Hornby, seu estado de espírito e certas escolhas difíceis de fazer — mergulhar numa biografia de Matisse ou assistir ao campeonato de futebol?, por exemplo.

O autor de “Alta Fidelidade”, “Febre de Bola” e “Uma Longa Queda”, entre outros, achou divertida “a ideia de escrever sobre a experiência da leitura, ao contrário de escrever sobre livros isolados”. Com o convite para colaborar com a revista acabou por colocá-la em prática.

Preocupado em dar notícia do que entra na sua biblioteca, o autor inicia cada artigo com uma lista dos livros que comprou e recebeu e outra dos que efetivamente leu naquele mês. Em julho de 2004, chega a escrever uma nota de rodapé sobre a lista: “Comprei tantos livros este mês que chega a ser obsceno, e não estou listando todos eles: esta é uma seleção.”

Que livros constam dessas relações? Os mais variados, grande parte ainda não traduzida para o português, entre lançamentos, clássicos — ele, enfim, consegue ler “Cândido”, de Voltaire, por exemplo, e reler “David Copperfield”, do seu querido Charles Dickens —, muitas biografias e muitos livros de cartas entre escritores, obras sobre política, esportes (é torcedor fanático do time de futebol Arsenal), autismo (é pai de um autista) e até autoajuda (para parar de fumar), além de dois audiobooks.

Hornby mostra, ainda, preocupação com a continuidade do hábito da leitura de livros nestes tempos de internet. “Se quisermos que a leitura sobreviva como forma de lazer — e há estatísticas que mostram que não há como garantir isso —, temos então de promover as alegrias da leitura e não os benefícios (dúbios)”, fazendo uma referência aos livros “obrigatórios”.

Ele soa como um subversivo do universo literário diante daqueles que se sentem obrigados a ler determinada obra para se sentir mais inteligentes ou cultos: “Por favor, se você estiver lendo um livro simplesmente sacal, coloque-o de lado e vá ler outra coisa, da mesma forma com que pegaria o controle remoto caso não estivesse gostando de um programa na TV.” E tranquiliza mais adiante: “Nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano.”


“Frenesi Polissilábico” - Nick Hornby - Rocco, 264 págs., R$ 33,00

Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 9/4/2009

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